“In this blog i will share portraits i’ve taken of women and their favorite book. They will write a few words about their choice, original text will be in Portuguese, translated into English by Miguel Botelho.” – Descrição original publicada em 17 de Junho de 2011.
O projecto Book Loving Girls
O Book Loving Girls nasceu de um confronto comigo próprio. Durante muito tempo, fotografei pessoas apenas à distância, em eventos, na rua, diluídas na paisagem. Evitava o contacto direto. Tinha vergonha de pedir que alguém posasse para mim. Um dia percebi que, se quisesse crescer como fotógrafo como artista, teria de enfrentar esse medo. E nada melhor do que um projeto de retrato, pela proximidade e partilha que exige, para o fazer.
Sempre soube que seriam mulheres as protagonistas desse projeto de retrato. Todo o meu trabalho criativo (e a minha vida) está profundamente ligado ao universo feminino. Cresci rodeado por três mulheres extraordinárias: a minha bisavó, viúva, que cuidava sozinha da sua terra; a minha avó, modista nas Caldas da Rainha, mulher independente, trabalhadora, rodeada de alunas (“aprendizas”, como ela lhes chamava) e a minha mãe, exemplo constante de carinho e força. Entre vários alinhavos femininos, aprendi a respeitar e a sentir-me em casa nesse mundo. Esse respeito e admiração acompanham-me até hoje.
Mas fotografar mulheres, por si só, não bastava. Faltava uma história, um fio narrativo que ligasse tudo e que desse alma ao projeto. A resposta surgiu quase por acaso, em 2011, na Feira do Livro, através de conversas no Twitter com mulheres apaixonadas por leitura. Uma sugestão simples abriu o caminho: retratar mulheres com os livros de que mais gostavam.
A literatura tem um poder transformador. Há livros que nos mudam, que nos deslocam da normalidade dos dias, que nos fazem sair diferentes de como entrámos na primeira página. Foi aí que tudo fez sentido: cada mulher seria retratada com o livro que a transformou. Não o favorito, mas aquele que lhe mudou a forma de ver o mundo.
Faltava ainda um elemento essencial: a voz delas. As fotografias, sozinhas, não bastavam. Cada retrato teria de ser acompanhado por um texto onde cada mulher explicasse porquê aquele livro, que mudanças trouxe, que janelas abrira. Assim, o projeto ganhou corpo e um sentido genuíno.
Comecei por mulheres que já conhecia, para vencer a hesitação inicial. Depois vieram os convites difíceis, os receios repetidos como “não fico bem nas fotografias”, e a promessa que sempre fiz: o controlo era delas. Se não gostassem, nada seria publicado. Essa confiança foi fundamental.
Nunca houve candidaturas espontâneas. Fui sempre eu a bater à porta, às vezes sentindo-me quase um intruso. Algumas recusaram, outras aceitaram com entusiasmo e ainda sugeriram amigas. O projeto cresceu devagar, uma sessão de cada vez, nos tempos livres, sem orçamento, ajustando horários, escolhendo lugares significativos – espaços ligados ao livro ou simplesmente lugares amados.
Hoje, o Book Loving Girls, depois de várias exposições, amadureceu e ganhou corpo, mas a sua essência mantém-se: criar uma comunidade em torno do poder transformador da literatura. Enquanto houver mulheres e livros que mudam vidas, estarei aqui para as fotografar e para escutar as suas histórias.

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