
The Beauty Myth – Naomi Wolf
O livro O Mito da Beleza entrou na minha vida há praticamente 20 anos. A edição que trago para esta sessão fotográfica não é a que li originalmente, essa emprestei-a e nunca mais a vi.
Antes de iniciar a leitura estava longe de pensar o impacto que teria em mim. Estudava no Politécnico de Setúbal e a professora Ana Maria Pessoa viria a tornar-se uma figura importante na minha visão do mundo. Defensora acérrima dos direitos das mulheres e com um conhecimento literário incrível, fez com que questionasse muito dos meus posicionamentos na altura. Abriu-me as portas a temas que impactavam muito a minha vida sem que eu tivesse conhecimento da sua dimensão.
Enquanto mulher que sempre se debateu com questões sobre o próprio corpo e que passou boa parte da vida a lutar contra as oscilações drásticas de peso, este livro colocou-me numa posição de desconforto. Além desta questão, lembro-me de muitas outras em que Ana Maria Pessoa falava da mulher e da sua “subjugação” ao patriarcado. E se alguém falasse com ela sobre casar e adotar o apelido do marido, que se preparasse para ficar a conhecer o porquê de ser uma péssima decisão.
Desculpem. Volto agora ao tema que me leva a escrever este texto: O Mito da Beleza. Para uma mulher na casa dos vinte, o corpo assume um papel de destaque nas várias vertentes da sua vida e desculpem, mas só não vê quem não quer. Neste livro, Naomi Wolf, trata a beleza enquanto arma política em várias áreas da vida, das quais destaco: o trabalho; a religião; o sexo e a cultura. Quando o Mário me convidou para dar o meu contributo para o seu projeto, este foi o primeiro livro que me passou pela cabeça. Comecei os primeiros rascunhos deste texto quase de imediato e dei por mim no carro a falar sozinha e em voz alta sobre o impacto que este livro tinha tido em mim. Dei por mim a discursar no trânsito como se esse ato me empoderasse. A discursar sobre como o meu corpo já foi motivo para ser vencedora em determinados quadrantes da minha vida e já foi motivo para ser derrotada noutros tantos. Não sou ingénua ao ponto de pensar que um corpo esbelto não traz agarrado a si reconhecimento em várias áreas e tenho a certeza de que um corpo esbelto agarrado a uma cabeça inteligente incomoda muita gente. Conheço mulheres incríveis em várias áreas artísticas e sei o impacto que o corpo tem na imagem construída em torno delas e, na verdade, na imagem que têm de si próprias. Além de tudo isto a gordofobia existe e destrói muitas mulheres.
O meu corpo está em constante luta com a minha mente. Quando estou magra, não estou no meu pleno profissional, quando estou gorda a minha cabeça é um antro de criatividade. Sei que a afirmação anterior não faz sentido algum, mas bate certo com vários momentos cruciais da minha vida.
Se leu até aqui é bom sinal. Muitos já estarão a pensar que este texto será um ato de poder feminista (seja lá o que isso for). Na verdade, o impacto que O Mito da Beleza teve em mim vai para além da condição e implicação que tem nascer-se mulher a um nível global. Teve um impacto profundo na forma como comecei a lidar com questões no emprego até à forma como lido com as questões religiosas e o seu poder. Gosto particularmente de como a autora se refere aos “Ritos da Beleza” nas práticas religiosas: “The Rites of Beauty redefine original sin as being born not mortal, but female.” Passando por: “Beauty is heaven or a state of heaven; the skin or fat cell count is the soul; ugliness is hell.”
Acho que é interessante passar da religião para outra esfera, e a sequência perfeita é entrarmos pela pornografia. Sabemos que a maioria da pornografia considerada de alta qualidade tem mulheres lindíssimas e submissas, certo? Mas já fizeram estudos de mercado para nos perguntarem a nós, mulheres, o que achamos dos atores porno e das suas prestações? Assumo que ainda não procurei informação aprofundada sobre o assunto, mas da pornografia que já vi, considero que os castings não primaram pelo bom gosto.
Mas isso não é o que me importa, aconselho especialmente que leia a parte do livro de Naomi Wolf sobre as violações e abusos sexuais e do quando esse desejo nasce da objetificação da mulher e destes mitos de beleza.
Quando peguei neste livro há quase 20 anos pensei que a nossa realidade em 2025 seria outra. Percebo agora que o retrocesso vai avançado e que as redes sociais e a imediatez têm um peso considerável nos distúrbios alimentares, na propagação da violência sexual, no machismo, na obstinação religiosa e nas consequências que estes e outros temas trazem à vida de uma mulher.
Considero que a desigualdade laboral é o menor dos nossos problemas na sociedade atual. A violência doméstica, o feminicídio, as violações e o abuso de poder crescem a uma velocidade difícil de acompanhar.
Acho que é claro o impacto que O Mito da Beleza teve em mim enquanto jovem adulta. Na altura numa luta contra aquilo que considerava ser excesso de peso e que atualmente – efetivamente com excesso de peso e outra maturidade – percebo ter sido uma construção pouco real que fiz de mim. Nessa mesma altura amigos questionavam-me como tinha conseguido arranjar aquele namorado porque “o teu corpo não faz muito o estilo dele”. Anos mais tarde, perto dos 30, estava no auge do que é socialmente considerado um corpo desejável e percebi que o mercado do engate se abria com uma força que nunca tinha sentido. Podia continuar a tocar em temas sensíveis, mas acho que por agora já me expus o suficiente.
E porque pensei muito antes de trazer este livro para este projeto adianto: aqueles que acham que o que estou a fazer é um ato de hipocrisia deixo o meu beijinho e convido a refletir. O projeto do Mário não objetifica a mulher, mostra que dentro de um corpo feminino habita um ser pensante que encontra na literatura conhecimento e empoderamento.
E para fechar volto à professora Ana Maria Pessoa que me incitou a refletir e só por isso já a colocaria na lista das professoras que sabem o que andam para aqui a fazer. Ela foi mais do que isso e nunca lho disse. Procurei-a há pouco tempo, mas pelo que percebi reformou-se e já não acede ao e-mail que eu tinha dela. Se alguém souber por onde anda, que lhe faça chegar esta publicação. Dedico-lha com carinho e respeito e agradeço por os nossos caminhos se terem cruzado.
Acredito que nascer mulher é querer chegar a um determinado fim, sabendo que não temos o mesmo ponto de partida.
Margarida Azevedo – Novembro 2025
Instagram: @margarida_._azevedo
