Aimez-vous Brahms? – Françoise Sagan

mulher com livro

 

Aimez-vous Brahms? – Françoise Sagan

«Aimez-vous Brahms?» de Françoise Sagan. Este livro vive comigo há 60 anos. De Lisboa, já foi a Nova York, a S. Paulo e voltou a Portugal. Com o choque da separação dos meus pais, aos 10 anos comecei a ler compulsivamente. Devorei toda a biblioteca lá de casa, desde ‘Anna Karenina’ a ‘A vida das formigas’.

No Portugal bafiento dos anos 60 foi uma alegria ter descoberto os livros proibidos que as tias traziam de fora, todos em francês. Com 15 anos nunca tinha viajado ao estrangeiro e ao ler ‘Bonjour Tristesse’, o 1º romance de Françoise Sagan, transportei-me para dentro daquela escritora de 18 anos, viajei para Paris, invejei toda aquela liberdade sexual de jovens da minha idade. Na minha cabeça de menina virgem, educada para fazer ballet, falar francês e casar bem, esse livro foi revolucionário. Mesmo em França tinha abalado os valores morais da época, ao captar num estilo fluido e sincero, as aspirações da geração do pós-guerra, o fim do modelo tradicional da família, a emancipação feminina.

Este seu 2º romance «Aimez-vous Brahms?» foi muito perturbador. Em Lisboa (e na Madeira) eu estava habituada a ser considerado ‘normal’ os homens casados terem amantes a que as esposas fechavam os olhos em nome da estabilidade familiar. Família, Fátima e Futebol. Mesmo nos casos em que elas tinham dinheiro de família (como era o caso da minha mãe e de várias das suas amigas), o poder estava nas mãos dos maridos.

Neste romance gostei da visão dela, divorciada com menos de 40 anos, ser independente financeiramente, viver sózinha, e ter uma relação ‘aberta’ com um empresário. Adorei a descrição da paixão por um jovem de 25 anos e daquele
triângulo amoroso. Depois foi uma desilusão o facto de, na história, ela terminar esse amor por medo da desaprovação da sociedade com a diferença de idades – para regressar à segurança da relação de conveniência, dentro dos conformes!? Continuo a chorar com a página final: tão triste, tão violenta e tão pungente.

A verdadeira razão de ter guardado religiosamente este livro? Ter jurado que tinha de evitar viver com esse medo do que os outros vão pensar. Passou a ser o meu lema. Fui mãe solteira aos 20 anos. Casei uma vez e tive de chegar à conclusão que prefiro viver sózinha a ter de sujeitar-me à comodidade de contratos. Continuo a gostar mais de ter amantes, de viver aventuras, mesmo de curta duração. Sempre gostei de ter relações abertas, honestas e transparentes. Difícil num país latino e machista? Claro, o certo é que vivo bem comigo própria.

Releio com frequência estas folhas gastas e amareladas, a fita cola mantém a jura viva.

Françoise Sagan viveu com uma liberdade que muitos reprovaram. «Dizem-nos que a coisa principal é amar. Eu acho que o principal é ser amado acima de tudo» 1992

Isabel Reis Borges – 01 de Novembro de 2025

Instagram: @isabelreisborges

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