Livro de “Sóror Saudade” – Florbela Espanca

Livro de Sóror Saudade, 1923, Florbela Espanca

Mas não te invejo, amor, essa indiferença,
Que viver neste mundo sem amar
É pior que ser cego de nascença!

(in Soneto Frieza)

Livro centenário, com apenas 36 sonetos, chega a mim em 2015, numa fase de cura de um episódio dramático e romântico-depressivo recente, e muda a minha vida para sempre!

“Sóror” quer dizer irmã; algumas freiras são chamadas assim. É uma palavra em desuso nos dias de hoje, mas que a poesia me ensinou a entender desde cedo. Eu sou uma de três irmãs. Florbela perdeu um irmão que amava muito. E eu, amando demasiado as minhas irmãs, espero poder partir antes delas.

Se tivesse de me colocar um apelido, talvez pudesse ser Saudade. Sei que é uma grande audácia da minha parte, mas vamos entrar no exercício para efeitos criativos:
1º porque sempre senti uma imensa Saudade de algo (ou alguém) que penso conhecer, mas sem ter experienciado nesta vida;
2º porque a Saudade consegue ser, ao mesmo tempo, triste e bonita, e eu me identifico muito com isso; e
3º porque é um orgulho termos, na nossa Língua Portuguesa, uma palavra intraduzível como esta.

Foi na eterna dúvida de quem sou e do que faço aqui que, aos 10 anos de idade, comecei a escrevinhar os meus primeiros versos e poemas. Desde então, não mais parei e devo à Florbela Espanca o facto de me ter sentido pertencente a um grupo de videntes das palavras.

Depois, ainda adolescente, descobri Florbela Espanca, nossa poeta portuguesa, por alguns desvalorizada e renegada. Felizmente não por todos! Logo que a li, ainda em miúda, parecia que os seus sonetos me falavam aos ouvidos e apelavam ainda mais ao coração. “Finalmente alguém que me entende”, pensei. E, ainda que pareça que estou a ser muito dramática (e já o era para uma miúda tão nova), acreditem que eu percebia os seus versos na perfeição.

Os 20 anos também não foram pêra doce, e acredito que a Florbela teria sido minha confidente e melhor amiga, se tivéssemos tido a sorte de nos cruzar na mesma linha temporal. Tal não sendo possível, dou uso dos meus versos para eternizar os seus.

Utilizo o poder das minhas lágrimas para aperfeiçoar o impacto da escrita. Os desamores sempre foram, para mim tal como para ela, a maior fonte de inspiração. Uso também as pérolas ao pescoço em homenagem a uma mulher pioneira em temas como o erotismo de uma paixão sem limites, os amores dilacerados, a morte, a perturbação mental, a depressão profunda — tão, mas tão à frente do seu tempo e, por isso mesmo, vexada e incompreendida por muitos que criticaram a sua intensa forma de vida.

Susana Pacheco

7 de Outubro de 2025

Instagram: @susana.m.pacheco

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