
L’Étranger – O Estrangeiro, de Albert Camus
Quando a minha mãe morreu, para além de ter começado a escrever poesia, regressei a Camus. Já havia lido a “Queda” e “O Estrangeiro” (será deste que falaremos), mas chegou-me às mãos o “Mito de Sísifo”. Deitei-me e levantei-me, diariamente, com a frase “Não há amor à vida sem desespero de viver”, usava-a como uma espécie de antídoto para aquele momento. Foi esta frase e este livro que me fez voltar a um outro, “O Estrangeiro”.
Creio ter uns 20, 25 anos e sentir o desconforto marcado pela estranheza de ler o início deste livro. A aparente indiferença pela morte de uma mãe. Este cair no abismo do absurdo do mundo. Era pesado e desconcertante para uma miúda de nos seus
vinte e pouco que acreditava em futuros e propósitos da vida, em encontros casuais e com intenção. Ler este livro empurrou, na época, a minha estrutura mental para um espaço que precisou desesperadamente de uma assimilação. Foi claramente um livro marcante neste sentido. De implantar uma imagem de inevitabilidade e despropósito da vida. E foi aos 38 anos que o senti como um terramoto individual e não coletivo.
Dei-me conta, de que um dos primeiros textos que escrevi, foi sem dúvida, esta transição entre “O Estrangeiro” e o “Mito de Sísifo”.
“Quando a minha mãe morreu escrevi que durante todo o tempo que possamos viver nunca entenderemos a lógica da vida e a lógica da morte. Perguntei-me o que quereria a vida ensinar-me com isto a não ser que estamos todos em fila de espera
para a morte. Nua e cruamente, era isto. Todos os dias seguintes são dias de juntar novamente as peças e desejar um sentido. Às vezes divino. Mas todos os dias a vida relembra-nos o nosso prazo de validade. A sua impermanência. A inevitabilidade.
Quando porta de um carro se fecha. Quando 57 anos parecem suficientes. A vida é implacável a ser fugaz. Há dias, em que todos os dias, são, no fundo, uma tentativa de enganar a morte.”
Albert Camus, e especialmente “O Estrangeiro”, é inevitavelmente uma marca profunda na minha visão e forma de sentir o mundo.
Maria Joana Almeida
31 de Outubro de 2025
Instagram: @maria.joana.almeida_escrita
